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Processo

Processo

Dia 3/40. Acrílica. 2m x 1,2m.
Me perguntam com frequência: “Porque auto retrato?”
A resposta é bem menos filosófica do que as pessoas esperam, e provavelmente seja a mesma que Rembrandt daria: “Quem diabos posaria tão concentrado e por tanto tempo para alguém?”
Fazer um auto retrato de corpo inteiro é fisicamente a coisa mais difícil que eu já pintei. Desconheço uma pessoa que eu possa maltratar tanto quanto a mim mesmo.
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O que é Belo.

O que é Belo?

Existe uma confusão habitual entre os termos “harmonia” e “simetria”, no que diz respeito a nosso conceito do que é Belo.

Na natureza, o animal com mais facilidade de reconhecer padrões via a cena com mais velocidade, plenitude e gastando menos energia, isso aumentava suas chances de caçar e de evitar ser caçado (entre outros benefícios óbvios). Esta qualidade de reconhecimento nitidamente positiva para nossa sobrevivência foi uma das características que moldaram nosso conceito do que é Beleza, afinal, simetria nada mais é do que a atestação de um padrão.

Aliado a isso, soma-se o fato de que quanto mais simétricas forem as partes correlatas de um mesmo espécime, maior será sua probabilidade de ser saudável.
Esta impressão, obtida através da seleção natural, é o segundo fator que nos faz pensar que simetria e beleza são a mesma coisa.

Pois bem, se eu pintar um rosto totalmente simétrico não terei nada mais do que um pintura modorrenta e sem apelo. Quando se pinta um lado do rosto idêntico ao outro, o espectador que viu um dos lados não será surpreendido pelo lado oposto, que nada terá a acrescentar a visão. Aquele que vê tal imagem irá seguir em frente sem sobressalto algum, sem gasto de atenção, assim como o animal que ao reconhecer um padrão, segue sua vida evitando gasta-la.
Por isso, é possível afirmar que na Arte a simetria nada mais é do que um recurso vulgar para tentar emular a Beleza.

É aí que entra a Harmonia, um conceito muito mais complexo e de difícil alcance.
A Harmonia, embora necessite sempre ser lógica, nunca se apresenta de modo óbvio. Na grande maioria das vezes, para que ela floresça é preciso que exista o Contraste, ou seja, uma espécie de “antisimetria”, um movimento onde forças antagonistas se sobressaiam exatamente pelo fato de estarem ao lado de seus polos opostos.

É daí que vem a velha máxima de que “não existiria Luz se não houvesse a Escuridão”, é a partir deste conceito que obras como a Monalisa puderam nascer, onde um lado do rosto é de modo extremamente sutil, oposto ao outro, gerando o icônico sorriso “enigmático” daquela pintura.

Logo, um pintor nunca deve recorrer a Simetria, pois sua lógica se enfraquece quando saímos do mundo real e adentramos ao mundo simbólico. É a Harmonia a única verdade do pintor, a quem ele deve perseguir, quanto maior for sua intensidade e sutileza, mais potente será a obra.
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Processo

Outono

Existe uma vantagem em ser negligenciado, a possibilidade de se criar cânones. Os velhos mestres quase não pintaram o verão, o calor e os trópicos;

Quando o fizeram, era a visão de um europeu ali: o verão alegre, sadio, a comunhão entre aqueles que saudavam a chegada do sol, o resultado era belo, mas, por vezes, óbvio.

Não à toa Gauguin foi tão exaltado, morando nos trópicos ele entendeu que o calor poderia ser triste, que existia melancolia entre bananas e cobras, e, nesse jogo de contrastes invisíveis ao velho continente, criou beleza (que nada mais é do que o resultado da harmonia entre tensões).

Minha pretensão caminha ao lado de Gauguin, tentando encontrar a feíura do verão, porque existe aqui algo de muito belo, uma sinceridade ímpar naqueles que são tristes ao sol.
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Sobre o hiperealismo

Sobre hiper-realismo

Quando você vê um grande homem voando, o que você pensa?
Provavelmente: COMO ele fez isso?

Quando você vê um grande pássaro voando, o que você pensa? Provavelmente: que coisa MAGNÍFICA!

Passado o espanto, você diria que o hiper-realismo é um homem ou um pássaro?

Creio que a boa Arte Visual (sejamos menos relativistas, por favor) deva ser a sobreposição da sensação em detrimento do assombro pela execução.

O bom mágico faz com que o espectador se esqueça que está num show, enquanto o mal mágico faz com que o espectador admire a engenhosidade de seu truque.

Os melhores truques serão sempre os que são considerados mágicas, assim como um Caravaggio ou um Gauguin são admirados pelo que fazem sentir, não por como fizeram isso.

Um adendo aos que não trabalham na área: não se enganem, replicar com fidelidade é sempre mais fácil do que criar com consciência.
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O caminho do pintor (I)

O caminho do pintor (I)

Dentre todas as profissões, o pintor é aquele que deve buscar com maior clareza a ciência do estar presente, somente se estiver dotado de toda sua energia voltada ao tempo atual é que se tornará capaz de enxergar o que está a sua frente.

O ato de enxergar as cores só pode ocorrer em um tempo, não sendo possível de ser realizado genuinamente nem com lembranças, nem com projeções.

A nostalgia do Passado satura demais as cores, as distanciam umas das outras, fazendo com que se tornem caricaturas de um momento e não mais o momento em si. Já o Futuro mantém as cores brandas, mas acaba por destruir a harmonia entre elas, pois não é possível projetar a complexidade da natureza através da imaginação.

Um quadro só pode ser bom se for sincero, não há outra condição possível de existência, mas se engana quem pensa que uma obra ocorra somente no presente, o entendimento dos três tempos é fundamental para a execução de uma pintura harmônica e verdadeira.
(irei detalhar a importância dos outros tempos (passado e futuro) no próximo texto)
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O caminho do pintor (II)

O caminho do pintor (II)

Ainda falando sobre a importância dos Tempos na pintura, é hora de  colocarmos o Futuro em destaque, para utilizá-lo será necessário combater a Ansiedade com a Frieza de espírito.

Será o compromisso com o destino vindouro que irá garantir a manutenção dos seus objetivos nos períodos em que sua obra estiver em transição.

Lembre-se, não julgamos a beleza de uma casa pela cor do barro de seus tijolos;  Na arte é a mesma lógica, cada etapa tem uma função, se engana quem pensa que todas elas serão estéticas. Na técnica em camadas a finalidade de cada sessão é ser a melhor preparação possível para o dia seguinte.

A obrigação do pintor com a Beleza deve vir somente no dia da assinatura, qualquer compromisso anterior com o belo será apenas vaidade, insegurança ou afobação.

Abaixo está o primeiro desenho preparatório realizado nesta Expedição, demorei  5 dias nele. Nenhum deles foi gasto com a finalidade do prazer visual, procurei apenas encontrar a harmonia entre os espaços e a tensão entre os elementos. A hierarquia da informação virá posteriormente, através do arranjo dos valores (claro/escuro).

As redes sociais criaram uma alternativa comercial aos pintores, mas junto delas há também uma cilada, a falsa impressão que todas as etapas feitas devam ser para o deleite visual do espectador, acostumado a um alimento sempre novo, rápido e de fácil consumo.
Isto é um erro.
Se assim fosse, imagine como Da Vinci seria tratado hoje, após postar sua Monalisa pela enésima vez, afim de continuar o refinamento que realizou durante os inúmeros anos em que trabalhou na obra.